Os Primeiros 80 anos (1929-2009)
Em oito décadas, muitos destinos se cruzaram nos elevadores e saguões do Edifício Tamandaré
Até meados do século passado as ondas lambiam a mureta da praia do Flamengo a menos de cem metros do Edifício Tamandaré, ali onde hoje ficam as paradas de ônibus. Depois a geografia da orla foi alterada e o aterro afastou o mar, escondendo-o atrás dos bosques e gramados de Burle Max. A rua também mudou. Sepultados por outro aterro, o do tempo, casas e casarões deram lugar ao corredor de edifícios (o Tamandaré foi pioneiro).
Ainda em maio de 1950, quando o Doutor Sylvio Vianna Freire se instalou com a família no segundo piso, era só abrir a janela para receber no rosto um banho de Natureza. À esquerda, expandia-se o azul da Baía, com sua brisa, suas velas, sua preguiçosa amplidão. Na chácara densamente arborizada do outro lado da rua, onde pássaros e crianças conviviam em algazarra, aninhava-se o palacete do jornalista Herbert Moses.“Herbert Moses deixava as pessoas levarem as crianças para brincar no jardim”, lembra o Doutor Sylvio. “A casa tinha uma varanda toda em volta, e havia árvores cheias de pássaros, muito sabiá-laranjeira. Quando ele morreu, demoliram o palacete para construir esse prédio”, acrescenta, referindo-se ao Edifício 200.
Enquanto o mundo mudava lá fora, o Tamandaré manteve intacta sua identidade, e chega aos 80 anos com cara de 20 _ a cara da arquitetura art déco em voga nos anos 20, quando foi construído por Carlos Guinle. A fachada preserva os elementos estilísticos usados para obter um efeito de sólida imponência. Os arquitetos da firma Gusmão Dourado e Baldassini, autores do projeto, eliminaram, por exemplo, os balcões de cima do portão e fecharam parcialmente com alvenaria os do terceiro nível. É um recurso que “aumenta a escala do embasamento” e “transfere o segundo piso para a base do edifício”, como explica o “Guia da Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro”. O robusto portão contribui para “agigantar a entrada”; e as altas venezianas e os graciosos guarda-corpos dão o toque de indolência mediterrânea, especialmente sugestivo em dias de sol e vento.
A firmeza com que o Tamandaré está plantado no chão e o capricho com que foi construído atestam a tradição de conforto, qualidade e estilo da família Guinle, proprietária original do Copacabana Palace e do Palácio Laranjeiras. Parte do material de construção do Tamandaré veio de navio da Inglaterra. O pedigree francês do projeto manifesta-se na curiosa inversão hierárquica de alguns andares, com alojamentos de empregados e guarda-volumes ocupando o lugar das coberturas, no último piso. O gosto pelo conforto se reflete na altura do pé-direito, na generosidade dos cômodos, e no latifúndio dos saguões, que mantêm vizinhos a respeitosa distância uns dos outros (no hall do segundo andar já se celebrou um casamento com mais de cem convidados).
A preocupação com a elegância é flagrante nos elevadores, nas sancas, na marcenaria de janelas e portais. A vasta galeria de acesso de veículos e pedestres foge à suntuosidade das portarias art déco, mas permite o raro luxo de encostar o carro ao lado dos elevadores, como nostálgica homenagem às berlindas e carruagens do Segundo Império, hoje estacionadas no Museu Histórico Nacional.Na biografia dos prédios, como na dos homens, há espaço para a lenda, desde que não destoe do caráter do biografado. É sua dimensão imaginária. Consta que o milionário Carlos Guinle construiu o Tamandaré para oferecer aos amigos uma morada decente no nobilíssimo Flamengo de então, a poucos quarteirões dos centros do poder político da capital da República _ e só vendeu apartamentos na planta a pessoas muito próximas.
O doutor Sylvio e Dona Déa Lins e Silva, os moradores mais antigos, não confirmam nem desmentem essa versão. O pai de Dona Déa, o advogado e político Sebastião do Rego Barros, conhecia os Guinle, mas não era amigo da família; em todo caso, morreu bem antes de ela e o marido, o médico Mauro Lins e Silva, comprarem o imóvel do Edifício Tamandaré, para onde se mudaram em 1951, quando o prédio já saíra da adolescência. “Meu pai morreu muito moço, em Paris, quando participava da Conferência de Paz em 1946, como consultor jurídico do Itamaraty”, diz Dona Déa. “Nosso apartamento antigo nos trazia muitas recordações e Mauro resolveu vir para este prédio, onde moravam grandes amigos nossos, o Doutor José Teixeira de Sá Campos e a mulher, Jenny”.
Em oito décadas, muitos destinos se cruzaram nos elevadores e saguões do Edifício Tamandaré. Os mais antigos citam de memória condôminos ilustres, como o doutor Mauro Lins e Silva, que cuidava de todos sem cobrar consulta; o embaixador Paulo G. Hasslocher; o ex-prefeito de Campos Salo Brand; o pediatra Flávio Lombardi; e Fernando Machado Portella, superintendente do Banco Boa Vista. Residiram no 304 descendentes do marechal Hermes da Fonseca, o oitavo presidente da República.
Até hoje só dois porteiros controlaram as entradas e saídas, operando manualmente _ com muitos braços auxiliares _ os portões de ferro: João Gomes, por mais de 50 anos, e Geraldo José dos Santos, há 28. O decano dos empregados é o vigia José Aquino de Macedo: num plantão de mais de três décadas, ele viu moradores que ontem eram crianças, de repente, quase num piscar de olhos, começarem a voltar para casa tarde da noite.
Os primeiros 80 anos levaram a bela chácara de Herbert Moses, com seu alarido de meninos e pássaros, e as outras casas da rua. O próprio Edifício Tamandaré, sem avançar ou recuar um milímetro, acabou longe do mar _ o que talvez não seja desvantagem na era do aquecimento global. O mais importante, porém, foi ter este belo espécime de um próspero período da arquitetura carioca resistido às pressões do crescimento demográfico e das mudanças de gosto, e preservado aquilo que o distingue de outros prédios novos e antigos: a cara original dos anos 20.
Berilo Vargas





